Quando falamos em preservar a biodiversidade, é comum imaginarmos florestas, animais ameaçados de extinção, rios, oceanos ou paisagens naturais que gostaríamos de conservar para as próximas gerações. Tudo isso importa. Mas existe uma dimensão dessa conversa que nem sempre está presente no nosso cotidiano: quando protegemos a biodiversidade, não estamos protegendo algo separado de nós. Estamos protegendo as próprias condições que tornam nossa vida possível.
A água que bebemos, os alimentos que chegam à nossa mesa, a qualidade do ar, a fertilidade dos solos, muitos medicamentos e até a regulação do clima dependem, de diferentes maneiras, do funcionamento dos ecossistemas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que a saúde humana depende de ecossistemas capazes de fornecer ar limpo, água, alimentos e medicamentos, além de contribuir para a regulação de doenças e do clima.
Talvez seja preciso, então, mudar a pergunta. Em vez de perguntarmos apenas “por que devemos proteger a natureza?”, podemos perguntar também: o que acontece conosco quando as redes naturais das quais dependemos começam a se romper?
Somos parte de uma grande rede de vida
Biodiversidade não significa simplesmente a existência de muitos animais e plantas diferentes. Ela compreende a diversidade genética, a diversidade de espécies e a diversidade dos ecossistemas. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), essa diversidade está na base dos sistemas alimentares e contribui para processos ecológicos essenciais à agricultura e à vida humana.
Pensemos em uma floresta. Ela não é apenas um conjunto de árvores: plantas, fungos, insetos, aves, mamíferos, microrganismos, água e solo estabelecem incontáveis relações. Algumas espécies polinizam plantas, outras dispersam sementes, organismos decompõem matéria orgânica, raízes estruturam o solo e a vegetação participa dos ciclos da água e do carbono. O que chamamos de natureza é, na realidade, uma enorme rede de interdependências — e nós estamos dentro dela.
Essa relação fica muito concreta quando observamos nossa alimentação. De acordo com a FAO, cerca de 75% dos tipos de culturas alimentares do mundo dependem ao menos parcialmente da polinização animal. Abelhas, borboletas, aves, morcegos e outros animais contribuem para a reprodução de plantas presentes nos sistemas agrícolas. Preservar os ambientes onde vivem, portanto, também significa contribuir para a diversidade da nossa alimentação.
Nossa saúde não termina na fronteira do nosso corpo
A biodiversidade também está presente onde talvez seja menos evidente: na medicina. A OMS aponta que aproximadamente 70% dos medicamentos utilizados contra o câncer são produtos naturais ou sintéticos inspirados pela natureza. Plantas, fungos, microrganismos e outros seres vivos constituem um enorme patrimônio biológico do qual conhecemos apenas uma parte.
Uma espécie que desaparece antes de ser suficientemente estudada pode levar consigo informações genéticas, relações ecológicas e substâncias que sequer tivemos a oportunidade de conhecer. Preservar a biodiversidade é, nesse sentido, também preservar possibilidades futuras de conhecimento, cuidado e saúde.
A própria compreensão contemporânea sobre saúde vem incorporando essas conexões. A abordagem Uma Só Saúde (One Health) parte do reconhecimento de que a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas está interligada. A OMS define Uma Só Saúde como uma abordagem integrada voltada à saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas. Mudanças no uso da terra, desmatamento, expansão urbana e agropecuária e alterações climáticas também modificam as relações entre seres humanos, animais e agentes infecciosos.
Cuidar da saúde, portanto, não significa apenas cuidar individualmente do nosso corpo. Também envolve pensar na qualidade da água, do ar, dos alimentos e dos territórios onde vivemos.
Biodiversidade, água, alimentação, saúde e clima estão conectados
Um dos desafios da nossa forma de compreender o mundo talvez seja nossa tendência de separar aquilo que, na realidade, está conectado. Criamos políticas para saúde, meio ambiente, agricultura, água e mudanças climáticas, mas a natureza não respeita essas divisões.
Essa interdependência está no centro da Avaliação Nexus da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), publicada em 2024, que analisa conjuntamente as relações entre biodiversidade, água, alimentação, saúde e mudanças climáticas.
Quando um ecossistema é profundamente alterado, portanto, não perdemos apenas espécies. Podemos afetar a disponibilidade de água, a produção de alimentos, os solos, a regulação climática e as condições de saúde. Da mesma forma, conservar e recuperar a natureza pode produzir benefícios em diferentes dimensões da vida.
Podemos viver bem em um planeta cada vez mais empobrecido de vida?
Essa pergunta nos aproxima diretamente da ideia de Bem Viver. Durante muito tempo, parte importante do pensamento econômico moderno tratou a natureza principalmente como um conjunto de recursos disponíveis aos seres humanos. Florestas fornecem madeira, rios fornecem água, solos produzem alimentos e espécies oferecem matérias-primas. Precisamos desses recursos para viver. O problema começa quando essa se torna nossa única maneira de atribuir valor ao mundo vivo.
Uma floresta importa apenas porque captura carbono? Uma abelha merece existir porque poliniza nossas plantações? Uma planta deve ser preservada porque talvez contenha uma substância útil para um futuro medicamento?
Mostrar que dependemos da biodiversidade é fundamental, mas podemos ir além. Outras formas de vida não precisam demonstrar utilidade econômica para justificar sua existência. Há também uma dimensão ética na maneira como nos relacionamos com as milhões de espécies com as quais compartilhamos o planeta.
A ideia de Bem Viver oferece uma chave para essa mudança de perspectiva: em vez de imaginar seres humanos acima ou fora da natureza, podemos nos reconhecer como parte dela. Nosso bem-estar não pode ser construído indefinidamente às custas da destruição das redes ecológicas das quais dependemos.
Preservar biodiversidade é preservar possibilidades de futuro
Ainda conhecemos apenas uma parcela das relações existentes entre os seres vivos e não sabemos de quais recursos, conhecimentos e capacidades de adaptação as próximas gerações precisarão. Preservar a biodiversidade é também evitar que desapareçam possibilidades antes mesmo que possamos conhecê-las.
Mas biodiversidade não significa apenas medicamentos potenciais, alimentos, água ou serviços ecossistêmicos. Significa também beleza, diversidade, descoberta e a possibilidade de compartilhar o mundo com outras formas de vida.
Talvez, então, seja necessário abandonar uma antiga oposição: de um lado, as pessoas; do outro, a natureza. As evidências reunidas pela OMS, pela FAO e pela IPBES apontam justamente para uma realidade marcada pela interdependência.
Não precisamos escolher entre cuidar das pessoas e cuidar da natureza. Cuidar da natureza é também cuidar das pessoas. Preservar a biodiversidade significa reconhecer que também somos natureza — e que nenhum projeto de Bem Viver será possível em um planeta cada vez mais pobre de vida.
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