Por que ampliar coletivamente nossa compreensão da realidade é fundamental para o bem comum?

by Rede Conecta Saberes
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Vivemos um dos períodos mais paradoxais da história da humanidade. Nunca produzimos tanto conhecimento, nunca tivemos acesso a tantas informações e nunca dispusemos de tantas tecnologias capazes de conectar pessoas, ideias e culturas. Ao mesmo tempo, nunca convivemos com tamanha dificuldade para compreender a realidade em toda a sua complexidade. A desinformação, a polarização, a fragmentação dos debates públicos, a sobrecarga informacional, a velocidade das plataformas digitais e a crescente sofisticação das estratégias de manipulação tornaram evidente que o maior desafio do século XXI não é apenas garantir acesso à informação, mas desenvolver nossa capacidade de compreendê-la.

Essa constatação exige uma mudança de perspectiva. Durante muito tempo, acreditou-se que ampliar o acesso ao conhecimento seria suficiente para fortalecer a cidadania, a democracia e o desenvolvimento social. Evidentemente, esse continua sendo um objetivo indispensável. Entretanto, a experiência das últimas décadas demonstra que informação, por si só, não produz compreensão. É possível ter acesso a milhares de conteúdos e, ainda assim, construir interpretações equivocadas da realidade. É possível consumir notícias diariamente e permanecer preso a visões simplificadas, preconceitos ou teorias conspiratórias. É possível possuir um enorme volume de dados e, mesmo assim, não compreender suas relações, seus contextos e seus significados.

Mais do que um problema individual, trata-se de um desafio coletivo. Democracias não dependem apenas de cidadãos informados. Dependem de sociedades capazes de construir compreensões suficientemente compartilhadas da realidade para que o diálogo, a deliberação pública e a tomada de decisões coletivas sejam possíveis. Quando diferentes grupos deixam de compartilhar referências mínimas sobre os fatos, sobre as instituições ou sobre os próprios critérios para distinguir evidências de opiniões, torna-se extremamente difícil construir consensos, enfrentar problemas comuns ou fortalecer o bem comum.

Nesse contexto, compreender deixa de ser apenas uma habilidade intelectual e passa a constituir uma competência indispensável para a vida em sociedade. Mas, afinal, o que significa compreender?

Afinal, o que significa compreender?

Essa pergunta tem mobilizado filósofos, educadores, psicólogos, cientistas da informação, estudiosos da comunicação e pesquisadores da cognição há mais de um século. Embora utilizem conceitos e métodos distintos, essas diferentes áreas do conhecimento convergem em uma ideia central: compreender é muito mais do que acumular informações, compreender significa construir sentido.

Ao longo dos tempos, diferentes autores ajudaram a ampliar significativamente nosso entendimento sobre esse processo.

Na filosofia, Wilhelm Dilthey (1883), em Introdução às Ciências do Espírito, estabeleceu uma distinção que permanece extremamente atual. Segundo ele, explicar e compreender são processos distintos. Explicar consiste em identificar relações de causa e efeito, como fazem as ciências naturais. Compreender, por sua vez, significa interpretar experiências humanas, valores, intenções e significados. Quando tentamos compreender uma cultura, um movimento político ou uma obra de arte, não basta conhecer seus fatos objetivos. Precisamos interpretar os sentidos produzidos pelas pessoas em seus contextos históricos e sociais.

Hans-Georg Gadamer (1960), em Verdade e Método, amplia essa reflexão ao demonstrar que toda compreensão é inevitavelmente interpretativa. Ninguém observa a realidade a partir de um ponto de vista absolutamente neutro. Nossa linguagem, nossa cultura, nossa história e nossas experiências moldam continuamente a maneira como interpretamos o mundo. Para Gadamer, compreender é um diálogo permanente entre aquilo que somos e aquilo que buscamos conhecer. Esse encontro transforma simultaneamente nossa visão da realidade e nossa própria forma de existir.

Paul Ricoeur (1986), em Do Texto à Ação, acrescenta outra dimensão fundamental ao demonstrar que os seres humanos compreendem o mundo por meio de narrativas. As histórias que contamos sobre nós mesmos, sobre nossa sociedade ou sobre acontecimentos históricos não apenas descrevem a realidade; elas organizam nossa forma de percebê-la. Toda narrativa seleciona acontecimentos, estabelece relações, destaca determinados elementos e silencia outros. Essa reflexão mostra-se especialmente relevante em uma sociedade fortemente mediada pelos meios de comunicação, na qual disputas narrativas influenciam diretamente a maneira como interpretamos os acontecimentos públicos.

As reflexões da filosofia ajudam a compreender a natureza desse processo. A psicologia e as teorias da aprendizagem, por sua vez, procuram explicar como essa capacidade se desenvolve ao longo da vida.

A compreensão não nasce pronta: ela é construída

Na psicologia do desenvolvimento, Jean Piaget (1970), em Psicologia e Epistemologia, demonstra que compreender não significa receber passivamente informações transmitidas por outras pessoas. O conhecimento é continuamente construído pela reorganização das estruturas cognitivas do sujeito. Cada nova aprendizagem modifica a forma como interpretamos aquilo que já sabíamos. A compreensão, portanto, não é um estado final, mas um processo permanente de reconstrução do conhecimento.

Lev Vygotsky (1934/2001), em Pensamento e Linguagem, desloca esse processo para uma dimensão social. Segundo ele, ninguém aprende isoladamente. A linguagem, o diálogo e a interação com outras pessoas são elementos constitutivos da própria formação do pensamento. Nossa compreensão do mundo é construída coletivamente, por meio da cultura, da convivência e das relações sociais. Jerome Bruner (1990), em Acts of Meaning, reforça essa perspectiva ao mostrar que produzimos significados principalmente por meio das narrativas compartilhadas por nossas comunidades e culturas.

Se compreender significa construir significados, surge uma nova pergunta: como organizar esses diferentes conhecimentos para interpretar uma realidade cada vez mais complexa?

Compreender também significa conectar

Edgar Morin (1999), em Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, oferece talvez uma das críticas mais importantes ao modelo contemporâneo de produção do conhecimento. Para ele, aprendemos cada vez mais sobre partes isoladas da realidade, mas cada vez menos sobre as relações que existem entre elas. A especialização produziu enormes avanços científicos, mas também fragmentou nossa capacidade de compreender problemas complexos. Questões como mudanças climáticas, inteligência artificial, desigualdade social, democracia, saúde pública ou desinformação não pertencem a uma única disciplina. São fenômenos interdependentes, que exigem uma compreensão capaz de conectar diferentes conhecimentos, escalas e perspectivas. A compreensão, nessa perspectiva, nasce da capacidade de estabelecer conexões.

Mas compreender não depende apenas da forma como organizamos o conhecimento. Depende também da maneira como buscamos, interpretamos e atribuímos sentido às informações que circulam ao nosso redor.

Informação só produz conhecimento quando produz sentido

Enquanto esses autores investigavam a natureza da compreensão, a Ciência da Informação passou a perguntar como as pessoas constroem compreensão diante da enorme quantidade de informações disponível.

Carol Kuhlthau (1991), em seu estudo sobre o Information Search Process, demonstrou que a busca por informação não é simplesmente um procedimento técnico de localizar documentos. Trata-se de um processo intelectual e emocional de construção de significado. A compreensão costuma nascer da incerteza. Quando investigamos um tema, inicialmente experimentamos dúvidas, confusão e insegurança. Somente após sucessivos movimentos de exploração, seleção, reorganização e síntese conseguimos construir uma interpretação consistente. A incerteza, portanto, não representa um fracasso da aprendizagem; ela constitui uma etapa indispensável da própria compreensão.

Christine Bruce (1997), em The Seven Faces of Information Literacy, amplia essa visão ao afirmar que a competência informacional não consiste apenas em saber encontrar informações. Ela envolve diferentes formas de relação com o conhecimento: utilizar tecnologias, acessar fontes qualificadas, interpretar criticamente conteúdos, construir novos conhecimentos, aprender continuamente e utilizar a informação de maneira ética e responsável. A alfabetização informacional deixa, assim, de ser uma habilidade técnica para tornar-se uma competência essencial para a vida democrática.

Brenda Dervin (1998), ao desenvolver a teoria do Sense-Making, propõe uma das concepções mais influentes sobre a compreensão contemporânea. Para ela, compreender significa produzir sentido diante das lacunas, ambiguidades e incertezas que encontramos ao longo da vida. A informação não possui significado por si mesma. Ela só se torna relevante quando permite que uma pessoa estabeleça conexões entre aquilo que já conhece e aquilo que precisa compreender. O sentido não está contido na informação; ele é construído pelos sujeitos em seus contextos concretos.

Na sociedade digital, entretanto, a construção de sentido tornou-se ainda mais desafiadora, pois as informações circulam em ambientes altamente mediados por tecnologias e plataformas digitais.

A educação midiática e informacional como resposta aos desafios do século XXI

Essas contribuições tornam-se ainda mais relevantes quando observamos os desafios da sociedade digital. A circulação de informações passou a depender de plataformas tecnológicas, algoritmos, modelos de negócios baseados na economia da atenção e sistemas automatizados capazes de selecionar, priorizar e recomendar conteúdos. Nesse contexto, compreender a realidade exige compreender também os processos pelos quais essa realidade é apresentada, organizada e disputada.

Foi justamente diante desse cenário que a UNESCO consolidou o conceito de Educação Midiática e Informacional, especialmente por meio do programa Media and Information Literacy (MIL) (2011; atualizado em 2021). Essa abordagem parte da ideia de que o exercício pleno da cidadania exige competências muito mais amplas do que simplesmente utilizar tecnologias digitais. É necessário compreender como a informação é produzida, quem a produz, quais interesses orientam sua circulação, como funcionam os meios de comunicação, quais critérios sustentam a produção do conhecimento científico, como operam os algoritmos das plataformas digitais e de que maneira tudo isso influencia nossa percepção da realidade.

Sob essa perspectiva, combater a desinformação não significa apenas ensinar pessoas a identificar notícias falsas. Significa fortalecer capacidades permanentes de interpretação crítica, investigação, análise de evidências, avaliação de fontes, compreensão dos ambientes digitais e produção ética de informações. Em outras palavras, significa ampliar nossa capacidade de compreender.

Entretanto, compreender criticamente a informação representa apenas uma parte desse processo. A compreensão também precisa ser orientada por valores democráticos e pelo compromisso com a transformação da realidade.

A compreensão como condição para a cidadania

A pedagogia crítica de Paulo Freire (1968), em Pedagogia do Oprimido, aproxima essa discussão da democracia. Ao afirmar que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, Freire nos lembra que compreender nunca é um ato neutro. Interpretar a realidade significa reconhecer relações de poder, desigualdades, disputas de interesses e possibilidades de transformação social. A educação torna-se, assim, um processo de desenvolvimento da consciência crítica, permitindo que as pessoas deixem de ser apenas espectadoras do mundo para se tornarem sujeitos capazes de transformá-lo.

As ciências cognitivas acrescentam outra dimensão importante a esse debate. Daniel Kahneman (2011), em Thinking, Fast and Slow, demonstra que nossa mente utiliza constantemente heurísticas — atalhos mentais que tornam o pensamento mais rápido, mas também mais suscetível a erros, vieses e falsas certezas. Frequentemente acreditamos compreender fenômenos muito mais do que realmente compreendemos. Essa ilusão de compreensão ajuda a explicar por que informações falsas, interpretações simplificadas e discursos polarizadores encontram tanta facilidade para se espalhar. Desenvolver compreensão exige, portanto, cultivar humildade intelectual, reconhecer os limites do próprio conhecimento e manter abertura permanente para revisar nossas interpretações.

Se compreender é um processo de aprendizagem, interpretação e reflexão crítica, resta ainda uma questão fundamental: essa compreensão pertence apenas aos indivíduos ou também pode ser construída coletivamente?

A compreensão também é coletiva

Até aqui, a maior parte das teorias apresentadas concentrou-se na compreensão como um processo vivido pelos indivíduos. Nas últimas décadas, entretanto, estudiosos da comunicação e das organizações passaram a demonstrar que a compreensão também possui uma dimensão coletiva.

Jürgen Habermas (1981), em Teoria do Agir Comunicativo, defende que as sociedades democráticas dependem da existência de uma esfera pública capaz de promover processos comunicativos orientados pelo entendimento mútuo. A democracia não se sustenta apenas pelo voto ou pelas instituições formais, mas pela capacidade dos cidadãos de dialogar, argumentar, confrontar evidências e construir interpretações compartilhadas sobre os problemas públicos. Quando a comunicação é substituída pela manipulação, pela desinformação ou pela incapacidade de diálogo, enfraquece-se também a própria democracia. Para Habermas, compreender é um processo comunicativo que permite construir racionalidade coletiva.

Karl Weick (1995), em Sensemaking in Organizations, amplia essa ideia ao demonstrar que grupos, organizações e comunidades interpretam continuamente os acontecimentos para orientar suas ações. O autor utiliza o conceito de sensemaking para explicar como as pessoas constroem coletivamente significado diante de situações complexas e incertas. Não agimos primeiro para depois interpretar; frequentemente interpretamos juntos aquilo que está acontecendo para então decidir como agir. A compreensão, portanto, não é apenas um processo interno de cada indivíduo, mas uma atividade social permanente de produção compartilhada de sentido.

Essas contribuições permitem distinguir pelo menos três dimensões complementares da compreensão. Existe uma compreensão individual, relacionada aos processos cognitivos e à aprendizagem. Existe uma compreensão interpessoal, construída no diálogo, na linguagem e nas relações humanas. E existe uma compreensão coletiva, produzida pelas instituições, pelos meios de comunicação, pela ciência, pela educação e pela própria esfera pública. Essas três dimensões são inseparáveis. Quanto maior a capacidade de uma sociedade produzir compreensão coletiva sobre seus desafios, maiores são suas condições de fortalecer a democracia, enfrentar problemas complexos e construir soluções orientadas pelo bem comum.

Essa perspectiva nos conduz, finalmente, à pergunta que orienta este texto: por que ampliar coletivamente nossa compreensão da realidade é tão importante para a democracia e para o bem comum?

Democracia e bem comum dependem da ampliação coletiva da compreensão

Talvez seja justamente essa uma das tarefas mais importantes do nosso tempo. Em uma sociedade marcada pela abundância de informações e pela crescente complexidade dos desafios coletivos, ampliar nossa compreensão da realidade deixou de ser apenas um objetivo educacional. Tornou-se uma condição para a convivência democrática, para a participação cidadã, para a defesa dos direitos humanos e para a construção de futuros mais justos, sustentáveis e solidários.

É nessa perspectiva que a Rede Conecta Saberes compreende sua missão. Mais do que promover o acesso ao conhecimento, buscamos contribuir para a ampliação coletiva da compreensão da realidade, fortalecendo o pensamento crítico, a educação midiática e informacional, a conexão entre diferentes saberes, a autonomia comunicacional e a capacidade das pessoas e das comunidades de interpretar o mundo em sua complexidade. Acreditamos que sociedades mais democráticas e comprometidas com o bem comum não são apenas aquelas que produzem mais informação, mas aquelas que conseguem transformar informação em compreensão, compreensão em diálogo e diálogo em ação coletiva.

 

Referências bibliográficas

BRUCE, Christine. The Seven Faces of Information Literacy. Adelaide: Auslib Press, 1997.

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WEICK, Karl E. Sensemaking in Organizations. Thousand Oaks: Sage Publications, 1995.


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